| Sarna demodécica |
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Gustavo Seixas Dias
M.V. Diretor da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária Serviço de Dermatologia Veterinária
Fonte de frequentes dúvidas por parte de criadores e proprietários, esta sarna, também denominada demodiciose ou, popularmente, “sarna negra”, “lepra canina” ou “sarna do sangue”, representa uma doença cutânea causada pela exacerbação numérica de ácaros do gênero Demodex spp. Estes são parasitas que habitam folículos pilosos e, raramente, glândulas sebáceas de diversas espécies de mamíferos, estando, no entanto, presentes na pele em pequena quantidade. Algumas espécies incomuns podem ainda habitar a camada córnea da pele. No ser humano, por exemplo, o Demodex follicullorum pode ser encontrado em “cravos” localizados na face, não representando, contudo, problema dermatológico quando em baixa quantidade. Isso também ocorre nos cães, que são parasitados pelo Demodex canis – a exacerbação numérica propicia uma inflamação do folículo do pelo e estruturas anexas, com consequente instalação do quadro clínico. Muito se discute a respeito da etiopatogenia da doença, que permanece incerta. Sabe-se, porém, que a transmissão ocorre da cadela para os filhotes (lactentes) recém-nascidos por contato direto durante os dois ou três primeiros dias de vida. A transmissão, contudo, não implica em manifestação obrigatória da doença. Portanto, uma vez que o ácaro está normalmente presente na pele e a doença ocorre por aumento numérico de sua população, deve-se sempre investigar uma causa de base que permitiu a instalação da doença. Dois fatores são comumente atribuídos ao seu surgimento. O primeiro é caracterizado por um defeito hereditário de células de defesa que atuariam especificamente contra o D. canis, fazendo a doença se manifestar comumente em cães jovens. O modo de herança deste defeito genético não é completamente esclarecido. Sabe-se que um cão filhote pode apresentar a sarna demodécica sem que haja histórico familiar da doença. Progenitores aparentemente saudáveis podem gerar filhotes que posteriormente apresentem o problema. Não há, até o momento, teste disponível que identifique os cães normais e os carreadores do defeito hereditário. Por este motivo, filhotes doentes ou de ninhadas originadas de cadelas enfermas, convalescentes ou portadoras-sãs, onde um ou mais filhotes apresentem a demodiciose, não devem ser utilizados como reprodutores, sugerindo-se a castração. O segundo fator atribuído é a imunossupressão. Enfermidades infecciosas e metabólicas debilitantes, subnutrição e/ou períodos de estresse podem levar a uma menor capacidade de resposta imunológica generalizada, favorecendo a colonização do ácaro e a manifestação da doença em qualquer faixa etária. O mesmo ocorre com animais que se encontram sob quimioterapia ou sob uso de medicamentos imunossupressores como os glicocorticóides (prednisona, dexametasona e outros) e os inibidores da calcineurina (ciclosporina), entre outros. Portanto, em casos de sarna demodécica surgidos no cão adulto, sugere-se sempre investigar causas primárias, que devem ser corrigidas quando possível. De forma geral, a doença é mais comum em filhotes de cães com raça definida e de pelame curto, como pit bulls, pugs, buldogues ingleses, bull terriers, entre outros. Dois tipos de apresentação clínica da doença são observados: uma forma localizada e outra generalizada. A evolução e o prognóstico das duas formas são distintos. A primeira apresenta-se como áreas de alopecia (falha ou ausência de pelos) pequenas, bem definidas, eritematosas (avermelhadas) e descamativas, associadas ou não a prurido (coceira), e em pequena quantidade (até cinco ou seis lesões). Sua localização mais comum é na face e nos membros anteriores. Em muitos casos, a forma localizada se resolve espontaneamente, portanto, a expectativa e a observação, sem intervenção medicamentosa, podem ser a escolha do clínico. Todavia, alguns casos podem evoluir para a segunda forma, denominada generalizada, mais frequentemente observada. Nesta, as lesões cutâneas estão presentes em maior quantidade e, geralmente, em diversas áreas do corpo, ou até mesmo em uma única região corpórea, que se encontre totalmente acometida (como a região facial). Em quadros crônicos, as lesões tornam-se hiperqueratóticas (espessadas e ásperas ao toque) e hiperpigmentadas (enegrecidas, justificando o nome popular da doença). Quando uma infecção bacteriana (piodermite) secundária se instala, é comum a presença de edema, crostas e exsudação. Nestes casos, o paciente pode estar febril e prostrado. O diagnóstico da doença é simples e feito com base no exame parasitológico do raspado cutâneo. Para isso, o clínico veterinário, com o auxílio de uma lâmina de bisturi, promove uma raspagem na pele, até produzir algum sangramento capilar. O exame é simples e indolor. O material coletado é então colocado em uma lâmina e avaliado cuidadosamente sob microscopia para identificação de ácaros adultos, jovens ou ovos. Segundo dados recentes observados na Universidade de São Paulo, o raspado cutâneo devidamente realizado e interpretado é efetivo em 100% dos casos para o diagnóstico da doença. Outros exames complementares que auxiliam no diagnóstico são o exame parasitológico do pelame avulsionado, o exame parasitológico de fita adesiva e o exame direto de decalque cutâneo a partir de lesões exsudativas (úmidas). O exame histopatológico de biópsia cutânea pode ser útil, sendo reservado para casos de pododermatite (patas edemaciadas) refratária aos tratamentos convencionais e casos suspeitos de demodiciose em cães da raça shar pei, não confirmados pelos exames convencionais. O tratamento da demodiciose canina é feito com base em acaricidas sistêmicos (de uso oral ou injetável), associado ao tratamento tópico com xampus ou soluções. As lactonas macrocíclicas são amplamente utilizadas, porém seu uso deve ser monitorado, uma vez que os efeitos colaterais são relativamente frequentes e podem incluir prostração, tremores musculares e vômitos. Alguns casos graves podem apresentar cegueira transitória, coma e até morte. Sabe-se que determinadas raças de cães têm sensibilidade aumentada aos efeitos tóxicos destes medicamentos, como collies, pastores de Shetland, old english sheepdogs e seus cruzamentos. O tratamento tópico pode ser feito com soluções acaricidas foramidínicas, devidamente preparadas e empregadas de maneira e frequência corretas. Todavia, seu uso requer maior cautela, uma vez que existe risco de absorção e intoxicação pela pessoa que emprega o produto. Além disso, o animal banhado com tais soluções acaricidas não deve se lamber, devendo secar à sombra, em ambiente ventilado. A indução de hiperglicemia (aumento da concentração da glicose sanguínea) contraindica a utilização em indivíduos diabéticos (além disso, proprietários diabéticos também devem evitar contato com o produto). Os sinais de intoxicação são sedação, alterações de comportamento, paralisia digestiva, bradicardia e hipotensão. A terapia tópica também pode ser realizada através do emprego de xampus antisseborréicos ou antissépticos, conforme a necessidade. Antibióticos sistêmicos são muitas vezes utilizados em conjunto com a terapia acaricida, visando ao controle de infecções bacterianas secundárias.
O período de tratamento é longo, podendo comumente exceder 120 dias, independentemente do tipo de terapia escolhida. Em geral, a suspensão da terapia é feita apenas após três exames parasitológicos de raspados cutâneos negativos consecutivos, em intervalos de 30 dias entre cada um. A correção da causa de base, se presente, é fundamental para a resolução completa do quadro, evitando-se, assim, as recidivas. Ademais, a castração precoce de cães com sarna demodécica deve sempre ser recomendada, para evitar a propagação da doença.
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