| Clamidiose: perigo para donos de aves |
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Outro dia, estava em meu consultório, quando recebi um telefonema inusitado. Tratava-se de um médico, querendo mais informações sobre uma determinada doença. Surpresa, e ao mesmo tempo curiosa, continuei a conversa. O assunto era sobre um paciente humano que estava hospitalizado e com suspeita de psitacose. O médico desejava saber mais sobre a doença nas aves e me pediu que o ajudasse. Desde então, percebi a carência de informação a respeito dessa doença na sociedade, e sugeri a redação desse texto. Todas as vezes que diagnostico um caso de clamidiose (nome que recebe a psitacose quando ocorre em aves), percebo que seus proprietários nada sabem sobre ela e não dão a real importância ao seu potencial zoonótico. Mas, ao me verem utilizar máscara, luvas e óculos de proteção para manipular a ave, percebem que a possibilidade de transmissão da doença da ave para o ser humano é verdadeira. O nome da doença deriva da palavra psittakus, "papagaio" em latim, espécie em que foi realizado o primeiro diagnóstico da doença . A psitacose é causada pela Chlamydophila psittaci, uma bactéria Gram-negativa, considerada o principal microorganismo com potencial zoonótico transmitido por psitacídeos (aves com bico em alicate, como calopsitas, papagaios e araras). Entretanto, pode acometer todas as aves (domésticas e silvestres), mamíferos (humanos, bovinos, ovinos, caprinos, suínos, felinos, caninos e equinos), répteis, anfíbios e peixes. Casos em humanos podem ocorrer através do contato com qualquer espécie aviária infectada, porém, 70% dos casos estão relacionados a aves de gaiola. A infecção ocorre por inalação de aerossóis (pequenas partículas contidas no ar) contaminados, presentes no ambiente, em penas, excreções ou tecido de aves infectadas. Pessoas que possuem contato com aves, idosos, crianças e indivíduos imunossuprimidos são mais susceptíveis a desenvolver a doença. Os sinais clínicos em humanos são muitas vezes similares a uma gripe comum, como febre, dor de cabeça, tosse, calafrios, vômitos etc., mas, podem evoluir para pneumonias graves e, em alguns casos, óbito. A doença possui tratamento específico e o diagnóstico precoce é uma peça fundamental para o sucesso do mesmo. Nas aves, a doença pode ser transmitida da mesma maneira que no homem, podendo também ocorrer a transmissão quando os pais alimentam seus filhotes, e através do ovo. O surgimento dos sinais clínicos pode variar de alguns dias a várias semanas. Os sinais clínicos da clamidiose em aves são bastante inespecíficos, comuns a várias doenças, o que muitas vezes dificulta seu diagnóstico. Frequentemente acometem o sistema respiratório, ocular e digestório, com secreções nasais, inchaço nos olhos e diarreia. A doença é classificada em superaguda, aguda, crônica ou inaparente – esta última caracterizada pela ausência de sinais clínicos. Nessas condições, as aves continuam portadoras e capazes de disseminar a doença e até mesmo transmiti-la ao homem. Atualmente, existem testes diagnósticos disponíveis comercialmente em laboratórios específicos. Entretanto, algumas características do agente dificultam seu diagnóstico, que algumas vezes só é possível mediante a associação dos sinais clínicos, exames complementares e histórico da ave. A bactéria é sensível ao calor e a substâncias como o peróxido de hidrogênio (água oxigenada) a 3%, formalina, álcool 70% e composto que contenham amônia quaternária. A melhor maneira de prevenir a doença é manter sua ave saudável, com alimentação e manejo corretos, além de realizar uma quarentena adequada nas novas aves adquiridas. O manejo sanitário das aves e a idoneidade do criatório onde são compradas são um bom começo para evitar que a doença entre no seu criatório ou casa. O tratamento é possível também nas aves, porém é longo e necessita de acompanhamento veterinário constante, pois muitas vezes é necessário dar suporte ao animal que se encontra debilitado. Para isso, é muito importante levar sua ave a um veterinário especializado rotineiramente, como fazemos com cães e gatos, para que o mesmo possa orientá-lo corretamente.
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