Parto distócico em cadelas PDF Imprimir E-mail

Prezados leitores, a distocia em cadelas é definida como a dificuldade do nascimento fetal, sendo uma afecção freqüente em cães. Para melhor entendermos sobre a distocia e os possíveis tratamentos, faz-se necessário também o entendimento do parto eutócico, ou seja, o parto normal e os eventos que o antecedem.

O tempo gestacional de uma cadela é em torno de 58 a 62 dias, podendo variar de 58 a 72 dias, de acordo com a data da cruza ou monta e o real momento da fecundação do óvulo. Entretanto, períodos gestacionais superiores a 68 dias devem ser investigados.

Várias alterações fisiológicas hormonais ocorrem no útero gestante até o momento exato do parto. Entre esses hormônios, destacam-se a ocitocina, importante para a contratilidade uterina; a relaxina, que proporciona o relaxamento dos músculos pélvicos e abdominais, facilitando a passagem do filhote pelo canal do parto; o cortisol e a prolactina, cujo aumento parece estar relacionado com os fatores desencadeantes do parto.

O parto normal pode ser dividido em três estágios, chamados de trabalho de parto, que podem nos ajudar na identificação de um possível parto distócico:

Estágio I A cadela apresenta inquietação, comportamento de aninhamento (formação de ninho), decréscimo da temperatura corporal (em torno de 1˚C) e secreção vaginal mucosa. Esses sinais se iniciam freqüentemente entre 24 a 48 horas antes do parto e são seus sinais precursores.

Estágio II É a fase ativa do parto, em que a “bolsa d’água” se rompe. A cadela apresenta contração abdominal. O intervalo entre a ruptura e o parto do feto varia de 20 a 60 minutos. O parto de toda ninhada é de 6 horas, podendo se estender até 24 horas. O intervalo entre os filhotes pode chegar de 2 a 3 horas sem complicações evidentes.

Estágio III Envolve a expulsão das membranas fetais e da placenta.


A cadela em trabalho de parto deve ser deixada em local limpo e calmo, onde ela possa se sentir segura, sem estímulos externos, o que facilitará o parto, principalmente em “mães de primeira viagem”.

O entendimento sobre o parto normal nos leva a observar que fatores distintos aos mencionados anteriormente indicam um possível parto anormal ou distócico.

A distocia deve ser diferenciada quanto a sua origem em fetal ou materna, sendo este o primeiro passo para a escolha do tratamento adequado. As causas maternas são diversas, sendo a fraqueza uterina e a dilatação pélvica insuficiente causas comuns que podem levar a fadiga uterina.

A inércia uterina pode ser primária ou secundária, sendo a primária freqüente em cadelas de focinho curto – cães chamados braquiocefálicos (ex.: pug, bulldog, shih tzu, Ihasa apso etc.) – ou seja, as gestações nessas cadelas precisam de atenção especial e pré-natal. As causas fetais incluem fetos grandes, mal posicionados ou morte fetal.

Você deve estar se perguntando: como saber se a minha cadela precisa de ajuda no momento do parto? Alguns sinais podem ser observados e indicam a necessidade de avaliação por um médico veterinário. São eles:

  • Freqüência reduzida ou ausência de contrações uterinas por mais de 2 horas após o nascimento de um feto;
  • Presença do feto ou estrutura fetal por mais de 15 minutos no canal vaginal; e
  • Alterações clínicas da fêmea inter-correntes.


Quando optar pelo tratamento clínico à cesariana?

A avaliação clínica do médico veterinário determinará a causa da distocia e a conduta que deve ser realizada, sendo a palpação abdominal e vaginal, a radiografia abdominal e a ultra-sonografia de grande valia para o diagnóstico. O tratamento conservador é preferível ao tratamento cirúrgico quando houver indicação.

Alguns fármacos amplamente difundidos, como a ocitocina e o gluconato de cálcio, devem ser administrados de forma criteriosa, de acordo com cada caso, sob supervisão e indicação do médico veterinário, e só deverão ser utilizados quando não há obstrução de canal pélvico, fetos mal posicionados ou grandes ou ainda em casos de atonia uterina, pois podem levar a ruptura uterina e suas possíveis complicações.

A atonia uterina pode ser avaliada mediante a palpação do assoalho vaginal (reflexo de Fergunson), quando o mesmo deve apresentar contração após a palpação. A ausência de contrações pode indicar atonia uterina.

Fetos mal posicionados podem ser corrigidos mediante manobras obstétricas e/ou realização de episiotomia (incisão cutânea para alargamento da fenda vulvar). A presença de fetos grandes ou mortos é indicação para a cesariana.

O tratamento médico, quando indicado, deve ser realizado com critério e tentado por duas a três vezes. A falha no tratamento clínico indica a cesariana, para evitar possíveis complicações, como a ruptura uterina e/ou morte fetal.

A avaliação e acompanhamento pré-natal devem ser realizados com o médico veterinário, desde o momento da cruza até o momento do parto, para que ele oriente o proprietário quanto à alimentação adequada para cadela gestante, exames de acompanhamento de desenvolvimento fetal e quanto ao número de filhotes, podendo anteceder a fatores que coloquem em risco a cadela e seus filhotes.

“A prevenção é o melhor remédio.”


VALE LEMBRAR
  • Cadelas que apresentam parto distócico devem ser retiradas da reprodução.
  • O tratamento com ocitocina ou qualquer outro medicamento deve ser realizado com critério e cuidado e sempre sob orientação e supervisão do médico veterinário.
  • A avaliação pré-natal, seja ela radiográfica (com 45 dias de gestação) ou através de ultra-sonografia, são de grande valia e devem ser realizadas.
  • Idade avançada, obesidade, raças toy e braquiocefálicos podem ser fatores de risco para distocia em cadelas.

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Mário Sérgio Almeida Falcão
M.V. Mestrando em Saúde Animal pela Universidade de Brasília
Professor de Clínica Cirúrgica de Pequenos Animais na Faculdade da Terra de Brasília