| Por que cães e gatos brincam? |
|
|
|
|
Por que eles se divertem, não é mesmo? É, parece claro para todos nós, mas não para os cientistas que estudam o comportamento dos animais (os etologistas). Brincar gasta muita energia, é arriscado, pode causar ferimentos e parece uma coisa boba, sem sentido. Nós rimos, às vezes, de ver como os nossos animais brincam com besteiras, se surpreendem com coisas tão óbvias. As primeiras teorias sobre o brincar são do final do século XIX, mas até hoje não se sabe exatamente porque os animais brincam. Não se sabe a origem, o desenvolvimento e a função do brincar. Há um consenso que os animais com maior desenvolvimento cerebral brincam mais e que brincar é fundamental para seu desenvolvimento psicomotor. Mas por que os adultos brincam? Mas por que os cães que possuem um cérebro menor e menos complexo do que os lobos brincam mais? Há uma dúzia de teorias sobre o brincar, mas nenhuma delas é abrangente o suficiente para explicar por que os animais brincam. As brincadeiras podem ser solitárias ou sociais; podem ser com objetos, com o próprio corpo ou com parceiros. As brincadeiras sociais podem ser realizadas com animais da mesma espécie ou de espécies diferentes. É comum se observar gatos brincando com cães ou cães e gatos brincando com pessoas. Uma das teorias mais recentes afirma que as brincadeiras sociais servem para o conhecimento de “regras de limite”, ou seja, que os animais jovens e adultos brincam para testar os limites sociais de comportamentos que, em outro contexto, poderiam acarretar agressão, reprodução ou patologia. Por exemplo, filhotes que crescem junto a animais adultos, aprenderiam nas brincadeiras a intensidade de um ataque, de uma mordida, em que parte do corpo morder, quem e como morder, para aprender, dentro daquele grupo, os limites sociais. A idéia é defendida por um famoso etologista chamado Marc Bekoff, que desafia o senso comum da falta de uma moralidade entre animais. Bekoff afirma que essas regras de limites aprendidas, poderiam levar a um “código de conduta” tácito de um grupo de animais – uma moral, por assim dizer. A teoria é atraente e faz algum sentido, embora precise ser testada na prática, uma tarefa difícil. Mas, se ela for verdadeira, pode-se tirar boa lição na convivência entre humanos e animais de estimação. Freqüentemente, somos atraídos ou atraímos nossos pets para brincar. Permitimos vários tipos de contato, mordidas, arranhões, rosnados e silvados. Essa interação é muito prazerosa para nós e para nossos pets. No entanto, pode se tornar desagradável e preocupante quando as crianças em casa, ou nós mesmos, somos feridos, ou mesmo quando há algum prejuízo material, como a destruição de um objeto de alto valor. A brincadeira pode ter um crescendo e se tornar agressiva e arriscada. Nessas circunstâncias, de acordo com a teoria das regras de limite, o cão ou o gato está apenas testando os limites do dono ou do ambiente, em forma de brincadeiras. Antes ou quando isso acontece, somos instruídos a admoestar nossos animais com firmeza. A dolorosa ou cara oportunidade de brincadeiras desastradas nos permite estabelecer nada mais nada menos do que os limites com que nossos animais podem brincar, podem servir-se do mundo e de nós mesmo.
Vanner Boere
M.V. Doutor em Neurociências e Comportamento
Professor da Universidade de Brasília
|




