O caçador PDF Imprimir E-mail

Os gatos possuem um instinto de caça altamente desenvolvido, o qual milhares de gerações de domesticação não foram capazes de enfraquecer. Esse instinto é tão forte que mesmo gatos que comem regularmente as mais caras comidas enlatadas demonstrarão entusiásticos seu comportamento de caçadores. Isso faz parte do que é ser um gato, e táticas desencorajadoras, até mesmo punições, terão pouco efeito.

Como seus parentes selvagens, o gato doméstico é um predador natural, mas isso não significa que caçará apenas instintivamente; o ímpeto de caçar é induzido pela competição e demonstração, e as técnicas para caçar são aprendidas através da observação, tentativa e erro. As melhores táticas de caça são ensinadas pelas mães, as quais trazem pequenos animais vivos, tais como ratos para serem mortos como se fosse uma brincadeira. Brincando com seus dentes e garras, os filhotes aprendem a aplicá-los na caça de presas para comer. Por exemplo, os gatos não são capazes de caçar pássaros, a menos que tenham adquirido tal habilidade através da prática; filhotes de uma gata que não caça provavelmente não serão bons caçadores.

Os gatos domésticos não caçam para matar a fome, embora às vezes possam comer a presa. Basicamente, eles caçam pelo prazer do jogo, como aquelas pessoas que caçam raposa, mas que raramente a comem depois de matá-la. A aparente crueldade é um dos aspectos do comportamento felino que muitos acham difícil entender, condenando-o por não matar de imediato sua presa, com a qual prefere brincar, antes do golpe de misericórdia. Mas a ética humana não se aplica aos bichos: quando o gato age assim, está apenas aprimorando sua destreza; este comportamento instintivo não deve ser punido. Ademais, muitos avaliam esse grande caçador com padrões dúbios, elogiando-o quando livra a casa de animais daninhos e criticando-o se pega um passarinho.

Os gatos atacam qualquer coisa que se move, mas a presa mais apropriada será um rato ou um pássaro pequeno. Um hamster também poderá ser uma vítima; se tiver um, mantenha sua gaiola fora do alcance do gato.

Alguns gatos são caçadores de ratos por excelência, ao passo que outros não se interessam pelo esporte. Caçar ratos é um ritual atávico – isto é, que volta a se manifestar em uma espécie depois de passadas várias gerações - e alguns gatos têm uma “memória racial” mais desenvolvida que outros. Se o gato não caçar ratos, certamente não é necessário manter o gato com pouca comida para encorajar a caça, já que o instinto de caçar ratos não está associado à fome e, na verdade, gatos bem alimentados são, em geral, mais eficientes, já que eles estão menos ansiosos e em melhor estado de saúde. Gatos castrados podem ser tão bons caçadores quanto os não-castrados. Em geral, as fêmeas são melhores caçadoras que os machos.

Se seu gato voltar para casa carregando orgulhosamente um rato ou um pássaro morto e presenteá-lo a você, estará fazendo o que qualquer caçador faria – trazendo a prova do sucesso para quem ele considera sua família. Aceite o presente agradecido, mas trate de jogá-lo no lixo discretamente, pois presas selvagens podem transmitir doenças e parasitas.

Muitas pessoas não gostam que o gato ataque pássaros e colocam um sino na coleira para alertá-los da presença do inimigo. É uma idéia, mas não fique desapontado se não funcionar – há muitos gatos que conseguem voltar para casa com presas, apesar do sino. Se você costuma alimentar pássaros no jardim, coloque comida num espaço aberto, para que o gato não os ataque sorrateiramente.

Você deve estar ciente que um certo grau de comportamento predatório deve ser aceitável na maioria dos gatos. É claro que esse comportamento tem seus aspectos positivos, considerando-se que um bom caçador de ratos pode ser uma grande vantagem em casas velhas e ao redor de celeiros e estábulos.

A técnica felina de caça é uma maravilha de dissimulação e sutileza. O gato permanece imóvel por horas de frente para um espaço aberto, à espera da grande aventura, tentando se colocar no melhor local a fim de não ser descoberto. Ele então dá um salto surpreendentemente ágil e preciso, caindo de modo que as patas traseiras toquem o chão e as dianteiras capturem a presa.

 


Christine Souza Martins
M.V. Mestre em Medicina Veterinária
Professora da Universidade de Brasília